O mês de setembro celebra a campanha Setembro Verde, que visa conscientizar e incentivar a doação de órgãos no país. No Brasil, foram realizados mais de 30 mil transplantes no ano de 2025, tais como procedimentos renais, hepáticos, cardíacos, pulmonares, pancreáticos e de córneas, segundo dados do Ministério da Saúde. A capacidade cirúrgica e logística de transplantes no Brasil é grande, porém a demanda continua sendo preocupante. Atualmente, mais de 40 mil pessoas aguardam por uma oportunidade na fila única do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), sendo o rim e a córnea os mais demandados, seguidos pelo fígado e pelo coração.
O processo de doação perpassa diversas etapas, mas tudo começa com a decisão do doador ou da família. No Brasil, a negativa familiar, ou seja, quando parentes se recusam a doar órgãos de entes queridos, gira em torno de 45%. Os motivos são os mais variados, seja por desinformação, tabus sobre limites de idade e desconhecimento da vontade do falecido.
Segundo o hepatologista Tibério Medeiros, especialista a frente dos transplantes de fígado do Hospital Santa Joana Recife, da Rede Américas, a doação pode ocorrer por duas vias: após a constatação de morte encefálica ou em vida. No primeiro caso, o processo exige um protocolo médico rigoroso de confirmação clínica da morte encefálica, quando há parada completa e irreversível de todas as funções do cérebro e do tronco encefálico, e exames complementares. Porém, todo esse processo depende da autorização obrigatória da família.
"Após seguirmos os protocolos e termos a autorização da família, vários órgãos podem ser doados. Coração, pulmão, fígado, rins, pâncreas e intestino, além de tecidos como córnea, pele, tendão, osso”, explica Tibério. “Um único doador falecido pode ajudar e salvar várias pessoas", destaca.
Já na doação em vida, o número de órgãos que podem ser doados diminui. Uma pessoa saudável pode doar um dos rins ou parte do fígado. "O fígado tem uma capacidade muito grande de se regenerar. Quando doamos um pedaço, por exemplo, de um pai para um filho, esse órgão se regenera e vai crescendo junto com a criança, funcionando de forma normal", explica o especialista. No ano de 2025, segundo o Ministério de Saúde, houve um recorde nos transplantes renal e hepático, superando 6.500 e 2.500 procedimentos, respectivamente, com crescimento de 5,9% e 4,8%.
Parentes que doam para parentes já é um movimento conhecido no país, porém conta com critérios, estabelecidos pela legislação brasileira. Uma das restrições é que a doação em vida é permitida prioritariamente para cônjuges ou parentes consanguíneos de até quarto grau. Para doações direcionadas a indivíduos sem esse vínculo de parentesco, exige-se obrigatoriamente uma autorização judicial prévia. Tais exigências existem para evitar qualquer tipo de comercialização de órgãos no país.
Ser parente é garantia de compatibilidade?
Ter ligação sanguínea com a pessoa que precisa de um órgão é um fator que eleva as chances de compatibilidade, mas não significa certeza. "Cada órgão tem uma avaliação diferente. No transplante de fígado, avaliamos grupo sanguíneo, tamanho e volume do órgão, anatomia vascular e a qualidade biológica do doador e do receptor. No rim, avalia-se o painel de anticorpos e compatibilidade genética”, explica Tibério Medeiros. “Um paciente aqui no Recife pode encontrar compatibilidade perfeita com um doador da Bahia, de Sergipe ou do Maranhão, sem ter nenhum parentesco", complementa o médico. Para ser um doador de órgãos em vida, é necessário ter boa saúde, mais de 21 anos e garantir que a doação não comprometa as suas próprias funções vitais.
Na doação pós-morte, uma dúvida comum é sobre a saúde do doador. Segundo o especialista, doenças como hipertensão, diabetes ou a faixa etária do doador cadáver não são contraindicações absolutas. “O fator determinante no momento da captação do órgão é a viabilidade funcional, a integridade tecidual e a coloração dos órgãos nos exames de triagem. Por outro lado, para doadores vivos, o rigor clínico é máximo, visando a preservar plenamente a saúde de quem doa”, destaca Tibério.
O valor do diálogo em casa para dizer "sim"
No Brasil, para ser um doador de órgãos após a morte, é necessário comunicar a família o desejo de doar. Isso porque a legislação brasileira determina que a palavra final sobre a doação pós-morte cabe exclusivamente ao cônjuge, companheiro ou familiar adulto e juridicamente capaz até o segundo grau, como pais, filhos, irmãos, avós e netos, conforme as regras legais.
É nesse cenário em que o diálogo aberto dentro de casa se torna uma das estratégias para aumentar o número de doações de órgãos no Brasil. Em uma conversa tranquila, é possível compartilhar com a família dúvidas, valores e o desejos genuínos de ser ou não um doador, antes que um momento de perda aconteça. "Não basta guardar esse desejo só para a gente. É fundamental conversar com as pessoas ao redor e deixar bem registrado: 'Eu quero ser doador'”, ressalta Tibério Medeiros.
Tão importante quanto informar é que os familiares, caso ocorra o falecimento do doador, escolham honrar a vontade declarada pelo ente querido ainda em vida. “Ter essa conversa em vida retira muito o peso da dúvida dos entes queridos no momento de dor. Dessa forma, até o momento de perda irreparável pode ser vista também como uma oportunidade de salvar outras vidas e de realizar um desejo da pessoa que morreu", finaliza o especialista.